Eu estava ali no bar, quieto no meu canto, pensando na porcaria do solo novo. Três meses de ensaio quase diário antes da gravação do disco, várias músicas novas muito legais pra mostrar em shows já nos próximos dias, mas justamente na melhor delas eu não conseguia colocar um solo que me agradasse. Variei os modos gregos, variei acidentes, variei os desenhos de escala, tentei bends e vibratos e tremolos e flangers e wah-wahs, tentei o simples, tentei o complicado, e nada se encaixava na música.
Por isso que eu estava bebendo pinga horrível num copo sujo, num bar sujo e num bairro sujo. Minha mão direita doía. O porre que eu tomava não era suficiente pra anestesiá-la depois dos murros que dei em vários dos equipamentos no último ensaio, algumas horas antes. Devia ter uns dedos quebrados ali, se bobeasse. O solo já era – assim como a música, o disco e se bobear a carreira toda.
Então chegou este sujeito. Chapéu de palha e resto da roupa como se fosse um caipira vindo pelo primeira vez para a cidade. Sentou-se perto de mim, pediu uma pinga também, e puxou conversa de um jeito muito direto…
- Eu faço o seu solo.
Olhei pra ele sem entender nada. Afinal, eu já tinha virado umas sete pingas.
- Eu faço o seu solo. É uma música bonita com solo triste. Eu faço seu solo triste.
Pronto, eu tinha um jeca stalker. Sorri bem discretamente, pra manter uma pose de simpático, o que era difícil na minha situação daquele momento. Ele esticou a mão e se apresentou: Lúcio. Mostrei minha mão quebrada como que pedindo desculpas por negar o cumprimento. Ele inclinou seu corpo e pegou a minha mão. Um instante, um calor, e minha mão estava nova.
- Isso foi só um presente. Se quiser o solo, e todos os outros solos que quiser inventar durante sua carreira, se quiser sua carreira, se quiser fama, posso te dar tudo. Só preciso que assine o contrato, bebendo da pinga de meu copo. E meu pagamento será sua alma.
E eu que já tinha ouvido muita história de diabo comprando alma de guitarrista, fui convencido pela cura na mão. Mas resolvi negociar. Tentar enganar o tinhoso.
- Minha alma? Se eu te der minha alma em troca do solo e da habilidade, você falará apenas pela minha música. Eu te dou a alma da minha guitarra. Assim você falará por ela enquanto ela puder tocar. Seja comigo ou com qualquer outro guitarrista que venha a tê-la depois que eu já estiver morto.
O caipira riu.
- Que homem inteligente. Oferencendo-me um negócio melhor para nós dois! Aceitarei tua contra-oferta, meu caro. E pode confirmar o show de amanhã, que vai ser o primeiro dia da sua longa carreira de virtuoso.
Jogou o resto de pinga do seu copo na minha guitarra, que estava num case ao meu lado. Deu uma piscadela, e esta foi a primeira e também a última vez que o vi.
Os caras da banda se espantaram quando eu avisei que a mão estava ok e eu ia tocar, sim. Botei uns bandaids e enrolei um pouco de gaze só pra disfarçar, mas ela estava perfeitamente normal.
Chegou a música. Bonita, triste. Cantando sobre amor, aquelas baladas que a gente faz pra tocar no rádio e pras meninas quererem dar pra gente no fim do show. Chegou a hora do solo. Era a hora que o coisa ruim falaria através da minha guitarra.
E foi um solo épico. As notas iam saindo, limpas, longas, melódicas. Meus colegas se olhavam espantados. Eu sorria. Não fazia força, a guitarra era quem estava usando meus dedos. Foi o solo mais bonito e mais triste que já ouvi. E pelo jeito, o que todos ali também jamais ouviram. A música acabou, e não havia uma pessoa sequer sem lágrimas nos olhos. Eu podia sentir a tristeza no ar, e alguns começaram, pouco a pouco, a cair em desespero.
Eu não podia perder assim.
Puxei um riff. Não era nenhuma música nossa, era um riff que eu acabara de criar na minha cabeça. Era alegre, agitado, revigorante, quase dançante. Meus colegas de banda entraram no ritmo. Eu já sabia o que tinha que fazer.
Comecei o solo mais alegre que alguém jamais ouviu. O público se entreolhava. Sorrisos começavam a brotar no canto de suas bocas. Os pés voltaram a marcar o ritmo.
A guitarra não gostou e começou a reagir. As cordas pareciam mais grossas e mais tensionadas. Meus dedos já não deslizavam com facilidade. O braço começou a esquentar. Mas eu não podia largar a luta. Com um esforço tremendo, terminei o solo com uma escala que não sei mais qual era e ninguém consegue mais se lembrar que notas tinha – apenas se lembram que foi a escala mais bonita que um ser humano já tocou, mas era bonita e alegre.
Minha guitarra explodiu. Eu caí uns 3 metros para trás. Mas caí livre.
Eu agora era o melhor guitarrista do universo. E não devia nada pra ninguém.



















