O Banco do Montinho de Cocô

Publicado: maio 28, 2012 por GG em Indefinido

Era uma vez Joãozinho que foi aprovado pra fazer estágio no Banco do Montinho de Cocô.

Joãozinho foi pra São Paulo e assinou contrato e recebeu um papel, que dizia que Joãozinho seria funcionário do banco, pra poder ir a uma agência abrir conta de funcionário. Joãozinho foi na agência com seus documentos e assinou a papelada pra abrir a conta.

Porém, Joãozinho teve uma péssima notícia. Uma mulher do Banco do Montinho de Cocô ligou dizendo que, pelo nome de Joãozinho estar sujo, Joãozinho não poderia trabalhar no banco, até porque nem poderiam abrir conta pra Joãozinho.

Joãozinho ficou triste, e fez a única coisa que poderia fazer: nada.

Cinco anos depois Joãozinho descobriu que o Banco do Montinho de Cocô de fato abriu a conta pra ele. Estava inativa, claro, porque Joãozinho jamais soube de sua existência. Mas quando Joãozinho foi tentar fechá-la, disseram pra Joãozinho que o saldo estava negativo em 288 reais e 96 centavos.

Joãozinho ficou bravo e vai começar a xingar.

A Liga Extraordinária

Publicado: maio 21, 2012 por GG em Musicrônica

Cinco anos de carreira. Eu podia me lembrar do “antes” como se fosse ontem. Engraçado que a nossa memória, a nossa cabeça, tem dessas doideiras: eu também me lembrava de tudo que fiz nos cinco anos como se fosse ontem. A vida inteira é um grande ontem.

Mas o que mais me importava era o próximo dia. Coisa alguma que eu consegui nos últimos tempos valia tanto quanto o que eu viveria a seguir. A fama, o dinheiro, as mulheres, os carros, a diversão… nada. Meu coração já se acelerava só de pensar. Vez ou outra eu me pegava pensando se não era mentira. Mas estava tudo confirmado. Todos os ingressos vendidos. Dezenas de milhares de pessoas esperavam tanto quanto eu.

Seria o dia em que eu me apequenaria. Seria o dia mais feliz da minha carreira e da minha vida.

Dormir? Dormi num bar. Pra um rockeiro é fácil passar despercebido. Minha casa e minha cama não tinham nenhum apelo frente ao que estava por vir. Roupas? Só serviam pra não passar frio. Carro? Fui a pé. Andei por padarias para tomar café, botecos para comer salgados gordurentos. Comida cara? Pra que? Eu nunca me esqueci que dá pra ficar bem satisfeito gastando pouco. Nem importei quando roubaram minha carteira. Dinheiro? Foda-se o dinheiro. Estava chegando a hora. Eu continuava a ir andando até o estádio.

Tomei um banho e troquei de roupa no camarim. Na porta e nos corredores, meus colegas de banda sorriam pra mim. Eles estavam dispensados por hoje. Era quase um pecado dispensar uma banda daquelas, meu irmão baixista que tanto admiro, e os nossos amigos de bateria e teclado que fizemos na estrada. E eles nem se importavam, porque sabiam que era meu sonho que iria se realizar assim que eu subisse no palco, em alguns minutos.

Encontrei com meus convidados no caminho. Três deles de cabelos brancos, um outro já ficando grisalho. Apertamos as mãos, trocamos algumas palavras bem-humoradas e de incentivo. Subimos juntos.

O primeiro dos senhores, cabelos brancos, pegou as baquetas e se sentou na bateria. O segundo, cabelos brancos e grandes e embolados e blusa do homem-aranha, pegou sua guitarra vermelha que ele mesmo tinha feito. O terceiro, vestido de general, pegou seu baixo. O grisalho, de calças largas e camiseta de segurança  rasgadas pegou o microfone e subiu nas caixas de retorno.

Eu estava cercado de gigantes.

E foi foda.

O causo do email

Publicado: maio 13, 2012 por GG em Computação

Essa é uma história longa, que algum dia prometo contar inteira. Mas o fundamento básico necessário pra entender dá pra passar em poucas linhas, é a explicação abaixo:

Uma criança que tem o mesmo nome que eu anda pelas internets se cadastrando em sites (joguinho e orkut, principalmente) usando meu email.

Vez ou outra eu brinco que deveria ser exigida habilitação pra usar computador. Claro que é uma piada, e vocês poderiam me xingar de tudo que é nome, que eu me sinto superior usando computador só porque eu fiz computação. Isso é verdade, mas eu compreendo a dificuldade do resto de vocês. E é só uma questão de justiça, porque eu imagino que um médico sinta a mesma coisa em relação a nós quando começamos a falar de doenças e remédios, ou comentamos os últimos episódios do HouseMD.

Bom, retomando o causo deste post.

Este menino já vinha me causando essas chateações há algum tempo, mas ficou um tempo quieto. Recentemente, voltou à carga. Recebi email com link de confirmação de cadastro de um tal site Urban Rivals, aparentemente um joguinho de luta social (tipo Mafia Wars).

Abaixo, minha conversação com a administração do site para tentar banir meu email de lá.

[O que eu ainda não entendo é como diabos o moleque conseguiu jogar sem ter clicado no link de confirmação, porque ele nunca terá acesso aos emails desse tipo!]

De: GG
[através do formulário no site, com a opção "Pretendo eliminar minha conta"]
Olá.
 Alguém criou uma conta aqui usando meu email – presumo que seja uma criança, que tem feito isto em vários sites nos últimos tempos, simplesmente achando que o endereço é dela porque temos o mesmo nome.
Por isso fico recebendo emails de cadastro e reset de senha que já tem me irritado.
Gostaria que a conta fosse excluída e, se possível, meu endereço fosse banido para evitar reativação ou recadastro:  tanto este (g******@gmail.com) quanto meu outro endereço (g******@yahoo.com.br), que também tem sido usado erroneamente por esta pessoa.

De: Urban Rivals
Olá Gabriel,

Para poder eliminar a sua conta, precisamos de algumas informações para confirmarmos a sua identidade:

– Qual é o seu endereço de e-mail?;
– Qual era o pseudónimo da sua conta no momento da inscrição e qual é neste momento?;
– A que guildas pertenceu?;
– Qual é o seu ID de jogador?
– Que jogadores adicionou como amigos (indique pelo menos 3 pseudónimos)?
Qual a data aproximada da sua última compra de créditos? Qual foi o montante e o modo de pagamento?

Depois de recebermos estas informações, eliminaremos a sua conta sem qualquer problema.

De: GG
Olá,

Ao que parece vocês nem leram minha mensagem!

Estou pedindo a eliminação da conta porque não fui eu quem criei. Provavelmente a pessoa que criou nunca conseguiu usar também, pois o link de confirmação veio para meu email, ao qual ela não tem acesso.

No aguardo,

De: Urban Rivals
Olá Gabriel,

Não podemos eliminar contas sem nos certificarmos a quem pertencem.

De: GG
Vocês não estão vendo que o email é meu? Olhem bem para o campo “from”!

OUTRA PESSOA criou uma conta com meu email. LÓGICO que ela NÃO É minha. Justamente por isso eu quero que ela seja eliminada, porque não estou interessado em receber email de notificações do seu site!

Em anexo um desenho pra explicar melhor:

De: Urban Rivals
Olá Gabriel,

Repetimos:

Não podemos eliminar contas sem nos certificarmos a quem pertencem. Não temos culpa que tenham feito uma conta com o seu e-mail, não podemos simplesmente apagar uma conta que não é sua.

De: GG
Certo. Vou clicar no link de confirmação e usar a conta. O que preciso fazer de errado para ser banido? Fotos pornográficas? Palavrões para os outros usuários?

De: Urban Rivals
O seu endereço de e-mail mudou
A sua alteração de endereço de e-mail foi validada, o novo endereço de e-mail é:
fjfhefweiufbweui@gmail.com

Não se esqueça de que a partir de agora deve utilizá-lo para se ligar ao jogo. O seu antigo endereço de e-mail deixou de funcionar.
[...]

no próximo post, a história da Google Account

Finalmente o relato dos fabulosos shows que atendi em abril

A Parede

Dia 3 de abril. Terça-feira, dia em que eu deveria estar trabalhando, mas eu fui pra São Paulo ver show. Claro, eu pedi férias pra poder fazer isso.

Cheguei pouco antes do almoço e o roteiro incluía um pequeno passeio. Junto com meu irmão Rafael, fui pro largo do Paiçandu conhecer o verdadeiro bauru do Ponto Chic. Este foi nosso almoço, que foi seguido por uma caminhada pela galeria do Rock, vizinha ali. Depois o deslocamento até o Morumbi, com direito a mudança de planos – íamos pegar um ônibus na Praça Ramos, mas resolvemos ir de metrô/trem até o Morumbi e pegar outro ônibus lá. Parece que foi uma boa opção.

Conhecia o show The Wall do Roger Waters de um dvd, ao vivo em Berlin pouco depois que o muro caiu, que meu pai tem e gosta muito. Nunca achei que fosse ter a oportunidade de ver aquele show. Mas a chance veio, e digo sem medo de errar que essa turnê é muito, muito melhor que aquele concerto de mais de 20 anos atrás.

A vista do palco, com um muro-telão e seus mais de cem metros, já é intimidadora. Já joga na nossa cara que aquilo não é um concerto comum. Mas ainda assim, a ficha não cai. Só cai quando as luzes se apagam.

Um trompete tocando uma marchinha militar deixa todos tensos, ansiosos pelo início. Quem vem de repente, estrondoso, luminoso, um espetáculo de fogos com as primeiras notas do riff de In The Flesh?. A banda se junta na melodia, Roger começa a cantar e o coral de 50 mil pessoas vai junto. Ou nem todos. Eu não aguentei chegar na metade da música, já estava chorando, soluçando como criança.

Incrível como mesmo um show cujo roteiro você já conhece ainda possa trazer surpresas. A cada música o maravilhoso telão, de perfeita interação com a música, surpreendia.

O som? Ah, o som… fabuloso. Os solos clássicos, executados nota por nota, ao característico som estridente de Fenders em elegantes distorções de valvulados. Cada instrumento no volume perfeito, um capricho colossal.

Mama should I trust the government?, pergunta o personagem em Mother. O telão nos dá a melhor resposta, em português claro: Nem Fodendo. O discurso da dedicatória, a atualidade do assunto, a simpatia (surpreendente até) de Roger, tudo isso cativou ainda mais o público. Quem lá estava e não era apaixonado por The Wall certamente o ficou a partir dali.

Vários vídeos estão nesta página do core dump.

E teve choro bastante ainda em muito mais. Hey You, Comfortably Numb, The Trial… tudo, tudo sensacional.

O ruim desse show? É nunca mais achar graça em nenhum outro que vier depois.

A Água Parada

Dia 14 de abril, depois de passar as férias em MG, volto pra São Paulo, mais uma vez junto com o Rafael. Para um show duplo. A banda de abertura é o Fates Warning, considerada uma das pioneiras do prog-metal. Na bateria, um convidado especial: Mike Portnoy, ex-Dream Theater, e que era o motivo de muitos estarem ali.

É uma banda pouco conhecida mas que também gosto muito. Tocou vários de seus clássicos, incluindo Life in Still Water, que considero como o melô do mosquito da dengue.

Portnoy, que era pra ser só o convidado, obviamente apareceu bastante, exibido que é. O homem da barba azul fazia malabarismos com baquetas, tocava em pé, dava tchauzinhos para o público, só faltou se preocupar em acertar as músicas. Mas toca muito, então foi perdoado.

Para mim o destaque da noite (incluindo o show seguinte, descrito abaixo) foi Ray Alder, o vocalista. Cantando muito bem, sem truques e adaptações dos tons, perfeitamente como cantava há 20 anos.

A Chama

O show principal da noite de 14 de abril era do Queensrÿche. Estes sim um grande nome do hard-rock/metal, com um currículo invejável de álbuns (The Warning, Empire, Operation:Mindcrime, American Soldier, só pra dizer alguns), liderados por uma das grandes vozes do rock, Geoff Tate.

Geoff é um espetáculo por si só. Cheio de trejeitos, meia dúzia de óculos e outros acessórios, maquiagem. Espontâneo e de fácil comunicação com o público. Infelizmente não consegue mais cantar como há 30 anos, mas nada que manche o nome ou que atrapalhe o show.

Muitos clássicos também, como era de se esperar de uma turnê comemorativa de 30 anos da banda. NM156, Empire, I Don’t Believe In Love, a sensacional Silent Lucidity. Mas o que todo mundo esperava era Take Hold Of The Flame.

Enfim, uma bela quinzena, não? Três shows de bandas que muito aprecio em tão pouco tempo. Uma pena que eu não consiga passar num texto a verdadeira emoção de ter visto o que vi. Mas eu tento.

Que venha logo o Dream Theater…

As Baratinha

Publicado: março 6, 2012 por GG em F1
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Todo ano eu costumo comentar os carros novos da F1 por aqui, principalmente pelo fato de que eu falo sobre o que eu quiser falar. Mas esse ano eu vou começar comentando da minha decepção com a imprensa especializada, que abusou de comentar que “os carros são feios”, “ornitorrinco” e coisinhas do tipo. Tá certo que eles também tem o direito de falarem o que quiserem, mas porra, pra falar merda e fazer cobertura porca eu mesmo faço.

Ano passado, em Interlagos, meu amigo Hélton me mostrou um site onde ele acompanhava discussões técnicas da Fórmula 1. Li ali, em novembro, já atrasado, um post sobre o novo regulamento para os bicos. Os poucos com quem converso de F1 no dia-a-dia podem confirmar que eu falei com eles: esse ano os bicos vão ser diferentes. Pimba. Nada de adivinhação, apenas um pouco de informação.

O pior foi ver, durante a principal semana de lançamentos, que grandes portais escreviam coisas do tipo “tal equipe foi conservadora e fez igual outra equipe”, como se os carros tivessem sido projetados em 3 dias e não tivessem existido em simulações computacionais ou túneis de vento nos últimos seis ou oito meses pelo menos.

Que seja, foda-se.

Vamos aos carros em ordem de importância.

McLaren


Este é o carro que ganhará todas as corridas, até mesmo a do Bahrein que será cancelada. Tem os melhores pilotos, dirigentes, mecânicos, patrocinadores e torcedores. A única dúvida é: quem será o campeão? Hamilton ou Button. Pré-temporada: dizem que os pilotos não estão tão felizes assim com o carro, mas certamente estão tentando desviar a atenção dos adversários em mais uma genialidade da maior equipe de todos os tempos.

Red Bull

Carro do atual bicampeão e fenomenal Sebastian Vettel, e de seu companheiro que ninguém liga Mark Webber. Tem o grande projetista Adrian Newey, de quem se pode sempre esperar as melhores e mais espertas mutretas técnicas que sempre colocam seus carros entre os melhores. Pré-temporada: sussurros de que não está mais tão à frente do resto como no ano passado, mas ainda assim competitiva.

Lotus

Trouxe de volta do descanso (“anos sabáticos” hahaha) o grande Kimi Raikkonen, ídolo incontestável. Trouxe de volta também Grosjean, fazendo uma cagada pra compensar uma coisa boa. Pré-temporada: teve problemas com o chassi e perdeu algumas sessões, mas no resto pareceu bem rápida. Quem sabe possamos ver Kimi no pódio.

Mercedes

Equipe do multicampeão Michael Schumacher e sua manicure Nico Rosberg, de quem o companheiro blogueiro Ron Groo é fã número 1. Terá um ano de “vai ou racha”, pois já está na F1 há um tempo considerável e os resultados no ano passado demonstraram uma leve descendente. Pré-temporada: demorou a lançar o carro. Acho que vai ser racha mesmo.

Force India

Simpática equipe indiana que tem demonstrado crescimento (embora vacilante), tendo como pilotos Hulkenberg e algum outro que eu não lembro se é o Di Resta mesmo ou se trocaram o coitado também. Pré-temporada: teve seu brilhareco liderando uma sessão. Deve ser uma das forças do pelotão do meio e se bobear briga com a Mercedes.

Toro Rosso

A filhotinha italiana da Red Bull que vai ficando pra trás, não se de propósito. Estreará dois pilotos jovens e, dizem, talentosos, Vergne e Ricciardo (correr de HRT não conta). Pré-temporada: nem faço ideia.

Sauber

Equipe do melhor piloto da atualidade e quiçá de todos os tempos, o japa-mito Kamui Kobayashi, acompanhado por Pérez. Pré-temporada: não importa, só importa o talento de Koba.

Williams

Sombra de grande equipe que já foi, dependente de dinheiro venezualano via Maldonado e que vai mostrar pros pachecos que só o nome do tio não vai salvar a carreira do Bruno Senna. Pré-temporada: não quebra muito. Só isso.

Caterham

Sei lá.

Marussia

Sei lá também. Único destaque é que tem o bico pontudo que me lembra da F-Indy.

HRT

Pelo menos fizeram uma pintura mais-ou-menos.

Ferrari

Essa merda. Vai se fuder de novo, já até proibiu os pilotos de darem entrevista. Massinha aproveitará seu último ano de preiba andando de Ferrari (dando vexame) enquanto Alonso tira leite de pedra.

É isso aí e antes de você dizer “mas você só falou bobagem, GG” eu gostaria de relembrá-lo que eu não recebo salário pra escrever isso e eu sempre, sempre falo só merda mesmo.

Inté.

 

O solo triste

Publicado: janeiro 31, 2012 por GG em Musicrônica

Eu estava ali no bar, quieto no meu canto, pensando na porcaria do solo novo. Três meses de ensaio quase diário antes da gravação do disco, várias músicas novas muito legais pra mostrar em shows já nos próximos dias, mas justamente na melhor delas eu não conseguia colocar um solo que me agradasse. Variei os modos gregos, variei acidentes, variei os desenhos de escala, tentei bends e vibratos e tremolos e flangers e wah-wahs, tentei o simples, tentei o complicado, e nada se encaixava na música.

Por isso que eu estava bebendo pinga horrível num copo sujo, num bar sujo e num bairro sujo. Minha mão direita doía. O porre que eu tomava não era suficiente pra anestesiá-la depois dos murros que dei em vários dos equipamentos no último ensaio, algumas horas antes. Devia ter uns dedos quebrados ali, se bobeasse. O solo já era – assim como a música, o disco e se bobear a carreira toda.

Então chegou este sujeito. Chapéu de palha e resto da roupa como se fosse um caipira vindo pelo primeira vez para a cidade. Sentou-se perto de mim, pediu uma pinga também, e puxou conversa de um jeito muito direto…

- Eu faço o seu solo.

Olhei pra ele sem entender nada. Afinal, eu já tinha virado umas sete pingas.

- Eu faço o seu solo. É uma música bonita com solo triste. Eu faço seu solo triste.

Pronto, eu tinha um jeca stalker. Sorri bem discretamente, pra manter uma pose de simpático, o que era difícil na minha situação daquele momento. Ele esticou a mão e se apresentou: Lúcio. Mostrei minha mão quebrada como que pedindo desculpas por negar o cumprimento. Ele inclinou seu corpo e pegou a minha mão. Um instante, um calor, e minha mão estava nova.

- Isso foi só um presente. Se quiser o solo, e todos os outros solos que quiser inventar durante sua carreira, se quiser sua carreira, se quiser fama, posso te dar tudo. Só preciso que assine o contrato, bebendo da pinga de meu copo. E meu pagamento será sua alma.

E eu que já tinha ouvido muita história de diabo comprando alma de guitarrista, fui convencido pela cura na mão. Mas resolvi negociar. Tentar enganar o tinhoso.

- Minha alma? Se eu te der minha alma em troca do solo e da habilidade, você falará apenas pela minha música. Eu te dou a alma da minha guitarra. Assim você falará por ela enquanto ela puder tocar. Seja comigo ou com qualquer outro guitarrista que venha a tê-la depois que eu já estiver morto.

O caipira riu.

- Que homem inteligente. Oferencendo-me um negócio melhor para nós dois! Aceitarei tua contra-oferta, meu caro. E pode confirmar o show de amanhã, que vai ser o primeiro dia da sua longa carreira de virtuoso.

Jogou o resto de pinga do seu copo na minha guitarra, que estava num case ao meu lado. Deu uma piscadela, e esta foi a primeira e também a última vez que o vi.

Os caras da banda se espantaram quando eu avisei que a mão estava ok e eu ia tocar, sim. Botei uns bandaids e enrolei um pouco de gaze só pra disfarçar, mas ela estava perfeitamente normal.

Chegou a música. Bonita, triste. Cantando sobre amor, aquelas baladas que a gente faz pra tocar no rádio e pras meninas quererem dar pra gente no fim do show. Chegou a hora do solo. Era a hora que o coisa ruim falaria através da minha guitarra.

E foi um solo épico. As notas iam saindo, limpas, longas, melódicas. Meus colegas se olhavam espantados. Eu sorria. Não fazia força, a guitarra era quem estava usando meus dedos. Foi o solo mais bonito e mais triste que já ouvi. E pelo jeito, o que todos ali também jamais ouviram. A música acabou, e não havia uma pessoa sequer sem lágrimas nos olhos. Eu podia sentir a tristeza no ar, e alguns começaram, pouco a pouco, a cair em desespero.

Eu não podia perder assim.

Puxei um riff. Não era nenhuma música nossa, era um riff que eu acabara de criar na minha cabeça. Era alegre, agitado, revigorante, quase dançante. Meus colegas de banda entraram no ritmo. Eu já sabia o que tinha que fazer.

Comecei o solo mais alegre que alguém jamais ouviu. O público se entreolhava. Sorrisos começavam a brotar no canto de suas bocas. Os pés voltaram a marcar o ritmo.

A guitarra não gostou e começou a reagir. As cordas pareciam mais grossas e mais tensionadas. Meus dedos já não deslizavam com facilidade. O braço começou a esquentar. Mas eu não podia largar a luta. Com um esforço tremendo, terminei o solo com uma escala que não sei mais qual era e ninguém consegue mais se lembrar que notas tinha – apenas se lembram que foi a escala mais bonita que um ser humano já tocou, mas era bonita e alegre.

Minha guitarra explodiu. Eu caí uns 3 metros para trás. Mas caí livre.

Eu agora era o melhor guitarrista do universo. E não devia nada pra ninguém.

[São Paulo, 2022] Talvez poucos se lembrem, ou talvez outros tenham vergonha de se lembrar, mas no início dos anos 90 uma dupla de irmãos alcançou o estrelato na música brasileira principalmente por serem um casal de crianças prodígio. A dupla, Sandy & Junior, foi forçada goela abaixo do brasileiro pelo pai e pelo tio, que formavam (não sei mais se nesta ordem) a dulpa sertaneja Chitãozinho & Xororó, umas das mais bem-sucedidas da nossa história.

Lapidados com muita produção, Sandy e Junior cresceram cada vez mais como estrelas da música nacional, até o ocaso quase no fim da década seguinte, quando cada um resolveu ir para o seu canto. Sandy, a menina bonita de vozinha fina, emendou sem solavancos uma carreira solo com um trabalho muito parecido com o anterior (já que ninguém prestava atenção à voz do irmão). Já Junior teve suas inúmeras e infrutíferas tentativas de projetos com bandas e DJs.

Junior na década passada, época das frustradas tentativas de novos projetos

Junior na década passada, época das frustradas tentativas de novos projetos

Em primeiro momento motivo de chacota, em seguida esquecido, Junior Lima (ele tinha um sobrenome, depois da separação) caiu no caminho das drogas. Por alguns anos, suas únicas aparições na imprensa foram nas páginas policiais, como um ex-famoso preso na boca-de-fumo, por duas ou três vezes. Mas este texto não estaria sendo escrito se Junior não tivesse voltado do fundo do poço.

Irreconhecível, Junior chegou a posar pra foto com drogas

Irreconhecível, Junior chegou a posar pra foto com drogas

Depois de anos de tratamento, o vício foi superado e a volta foi programada. Junior se enfurnou em estúdios para se redescobrir musicalmente e reapareceu no fim de 2021 com um disco solo, Where I Have Been.

Deixe seu preconceito de lado. O disco é uma obra de arte. Junior buscou novas influências e fez incríveis e improváveis parcerias com seus antigos e novos ídolos da música, e criando seu novo estilo com muitas guitarras, bumbos e teclados em melodias ora progressivas, ora agressivas.

Produzido por Sascha Paeth, famoso por trabalhar com muitos dos maiores nomes do rock mundial, Junior tocou bateria e algumas guitarras, além de obviamente ser o vocalista/personagem principal de sua própria história. Paeth tocou a maioria das guitarras e o contrabaixo. Teclados e pianos foram tocados pelo brasileiro Fabio Laguna, outro internacionalmente rodado e talentoso músico.

Capa do disco - Junior Lima - Where I Have Been

Capa do disco - Junior Lima - Where I Have Been

Abaixo, faixa a faixa, a análise do disco.

The fall
Praticamente uma recapitulação da carreira. Um início simples, praticamente infantil, com batidas de tambores, que progride para um rockabilly por alguns minutos, até que subitamente um ar sombrio toma conta do som, com teclados sotlando acordes incômodos e guitarras afinadas em vários tons abaixo do normal. A atmosfera de pesadelo traz um vocal em tom de lamento. Uma mistura estranha, difícil de se digerir à primeira audição, mas repleta de significado e muito bem trabalhada, excelente abertura para o disco.

Look into my eyes
Esta faixa traz a participação especial do baterista Mike Portnoy, ex Dream Theater, e é uma clara referência à The Mirror, faixa que o baterista convidado compôs sobre a sua própria luta contra o vício em álcool. Pesada do início ao fim, mas com variações de andamento, trata do momento em que Junior percebe para onde sua vida está indo – o buraco – e tenta se convencer a resistir ao encanto das drogas, o que não consegue. Disparadamente a melhor música.

Agony
Fracassado, Junior se encontra no inferno, onde sofre diariamente do mesmo mal, e mesmo vendo a porta de saída, não tem força de vontade para alcançá-la. Um dos grandes momentos do disco é a discussão entre Junior e seus demônios pessoais, encarnados pelo convidado Jon Oliva. Jon, que também sofreu do mesmo mal, relembra aqui momentos como Mentally Yours, do Savatage, onde também cantou sua luta contra as drogas: seu vocal é penetrante e chega a causar medo, demonstrando uma maldade muito convincente. De fundo, um metal quase industrial, à moda de Rammstein.

There’s no fighting back
Seduzido pelo mal, Junior se deixa levar pelas drogas, em seu momento fundo-do-poço. Um hard-rock com um riff realmente viciante e com um lindo solo de Brian May, é o momento do disco que pode levar muito marmanjo às lágrimas.

The angel within
Um anjo intruso, cuja voz se faz cada vez mais alta na cabeça do personagem, interpretado por André Matos, aos poucos traz Junior de volta à consciência de sua situação. Uma música calma e com refrão bonito e pegajoso, daqueles momentos onde se acende o isqueiro com as mãos pro alto e todos cantam junto. No fim, Junior percebe que o anjo esteve o tempo inteiro dentro de si e não era nada mais que seu amor-próprio.

The helping hand
A devastadora voz de Bruce Dickinson é a do homem que ajuda Junior a se levantar e começar a luta. Em interpretação antológica do vocalista inglês, mostrando sofrimento e compaixão, o homem é alguém cuja missão é ajudar e cujo destino é continuar sofrendo. Steve Harris participa no contrabaixo, o que faz da faixa praticamente uma música do Iron Maiden, como que retirada diretamente de Powerslave. Talvez empolgado com a companhia, Junior tem também seu auge no vocal e faz uma levada interessantíssima na bateria. E o homem que o ajudou, embora nada seja explicitado, pode ser uma analogia a Jesus Cristo.

Where have you been?
Com muito esforço, livre do inferno, Junior reencontra seus amados. Irritado por achar que foi abandonado, descobre que eles sempre estiveram procurando por ele e tentando salvá-lo, porém não conseguiram por culpa dele próprio, que fugiu e se escondeu antes de cair em desgraça. Finalmente convencido pelo amor da família, representado pela macia voz da (deliciosa) Simone Simons (talvez em analogia à voz de Sandy, que preferiu não participar do disco, uma ótima troca), Junior cai em pranto, enxergando tudo que fez e finalmente se sentindo livre de tudo que passou.

Where I have been
Em paz consigo e com os velhos amigos e parentes, Junior canta sua história num tocante encontro com seu pai, Xororó, num improvável speed metal com guitarras dobradas de Andreas Kisser e Sascha Paeth e os bumbos duplos de Aquiles Priester. O tom de clímax é convincente, o problema é que o disco não acaba depois desta faixa.

Vida Nova
Uma faixa clichê com título clichê, desnecessária mas que não consegue estragar a obra, e não deixa de ser interessante. Acompanhado por violão e piano, Junior conta suas esperanças para a vida que começa agora, acalma os ânimos da pauleira do disco e encerra com frases otimistas.

O otimismo maior ao fim do disco é do ouvinte. Um disco de rock pesado bem produzido e com grandes interpretações e convidados de altíssimo nível como há muito não era feito no Brasil (foi produzido em estúdios na Alemanha, mas você entendeu o que eu quis dizer) nos traz esperanças de que uma nova onda de rock  internacionalmente reconhecível possa surgir no país, lembrando nossas épocas de Viper, Sepultura, Angra e Shaman, de um embalo que acabou há mais de 15 anos.

A esperar então que a imprensa nacional dê o devido valor ao lançamento. E que possa render mais frutos!

Ficha Técnica
Álbum: Where I have been
Artista: Junior Lima
Produção: Sascha Paeth e Junior Lima
Duração: 52 minutos
Participações: Mike Portnoy (ex-Dream Theater), Jon Oliva (Savatage, TransSiberian Orchestra, Jon Oliva’s Pain), Brian May (Queen), André Matos (ex-Angra, ex-Shaman), Bruce Dickinson e Steve Harris (Iron Maiden), Simone Simons (Epica), Andreas Kisser (Sepultura), Xororó (Chitãozinho & Xororó).