Quando eu fiquei sabendo que o Yes viria ao Brasil, eu corri pra falar com meu irmão Rafael, e pra comprarmos rápido os ingressos. Sempre conheci o Yes de reputação por citações do meu pai desde que eu era pequeno, embora tivesse ouvido pouco até o ano passado, e fiquei surpreso e feliz ao saber que eu poderia assistir a uma banda que eu já admirava e tinha como uma das melhores da história. Afinal, era dali do Yes que surgia a linhagem do Rush e do Dream Theater, outras bandas grandiosas e de estilos que eu gosto muito.
Corri também para olhar qual era a formação atual, preocupado em saber se o Steve Howe estava na banda, e estava. Ótimo, foi só esperar chegar o dia 24 de maio, e ir pra São Paulo.
Eu sabia que os nossos ingressos eram em uma mesa, mas não sabia que todos os ingressos eram em mesas. Parecia um show do Roberto Carlos de fim de ano na Globo, todo mundo sentadinho, serviço de bar nas mesas, o que achei muito bom. Assim, todo mundo podia ver bem o palco.
A banda de abertura era o Seven Side Diamond, de Curitiba, tocando prog com uma pitada de jazz, que achei muito boa.
Pouco depois das dez, o Yes entrou no palco. E era uma aparição, era algo surreal. Um palco simples, uma produção básica, que não tentavam roubar a cena da boa música. Steve Howe, Geoff Downes, Alan White, Chris Squire e Jon Davidson executaram seus clássicos com uma leveza e tranquilidade espantosas. Como bem comentou o meu irmão, é animador ver que é possível continuar tocando bem mesmo velhinho.
Vieram os álbuns completos Close To The Edge, Going For The One e The Yes Album. E gostaria de destacar primeiro o vocalista Jon Davidson, cuja voz é muito parecida com a do Jon original, e nos fez sentir totalmente confortáveis com sua performance impecável. Movimentava-se lenta e graciosamente, parecendo um anjo (as roupas brancas ajudavam), e arriscou falar português em vários momentos, o que sempre cativa o público brasileiro.
“Agora o Steve vai tocar Clap”, foi uma das frases de Davidson, e que foi a deixa para o ponto alto do show, com Howe sentado no monitor de retorno e mandando ver no violão, uma das músicas mais esperadas da noite. Howe está bem velhinho, parecendo o Zagallo, mas sua aparente fragilidade é só a casca de um monstro da guitarra, e ao fim de Clap ele foi aplaudido de pé por bastante tempo.
Aliás, agora é o que eu quero falar mesmo: Steve Howe é o guitarrista mais honesto que eu já vi e ouvi.
Mesmo já conhecendo os discos, me espantei ao vê-lo executando-os ao vivo com um som clean. Em apenas dois ou três momentos, Steve usou distorção, mas um drive bem leve, só pra dar um sustain em algumas músicas.
Quem toca guitarra sabe que, além de um efeito estético, a distorção tem um papel de trapaça. Como diz meu professor de guitarra, o Guto, “distorção é recurso”. Com um drive bem forte, podemos tocar notas emboladamente, falhar palhetadas ou digitações, que a distorção mascara o erro, deixa as notas fracas mais fortes.
Mas Howe não usa tal recurso nos seus solos. Errou várias notas, várias vezes, durante o show. E foi fantástico, porque isso não importa. Porque ele criou aquilo ali, porque ele tem coragem de tocar sem medo de errar, e você aí me ouvindo, você tá ouvindo porque você gosta, e hey, uma nota ou outra errada não é problema.
Ao fim dos três álbuns, a banda saiu do palco, e voltou para o tradicional bis com Roundabout, que foi ouvida de pé. O rapaz na nossa mesa ainda brincou que eles poderiam tocar o Fragile inteiro no bis. Teria sido bom, sim.
Na despedida, Jon Davidson desejou, em português, Harmonia, Paz e Prosperidade. Caramba, ele falou Prosperidade, sem errar, sem sequer parecer gringo.
Excelente, Yes, foi um prazer tê-los visto tocando. Não sei se os verei outra vez, mas com certeza esse show já ficou entre os mais marcantes que já vi.




